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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

De como certas canções tocam


Olá a todos. Hoje estamos inaugurando uma nova seção no Apenas 1 Cast que é dedicada a crônicas, resenhas, comentários e produção artística e intelectual dos nossos membros. A ideia aqui é dar vazão à nossa criatividade nos interlúdios entre os episódios do podcast. Para começar, vou falar de um assunto que eu domino: Faroeste Caboclo – o Filme e a Música.




Poucas canções possuem uma capilaridade tão grande na nossa cultura popular quanto essa. De fato, quando a música começa a tocar na rádio – pelo menos lá em Brasília, onde vivi minha infância e adolescência – é muito comum ver as pessoas acompanhando a letra inteira – ALL THE FUCKING NINE FUCKING MINUTES.

É muito difícil para mim expressar a importância de Faroeste na minha formação como admirador de música brasileira e, por isso, quando veio a notícia que ia ter um filme (ainda mais com a Ísis Valverde como Maria Lúcia) fiquei bastante preocupado com o resultado final. Na verdade tinha quase certeza que o diretor ia estragar tudo, tendo como base outros filmes nacionais no mesmo nível.  
Veio o filme no cinema e eu decidi não assistir. Alguns amigos meus falaram bem do filme, da produção, mas ainda ficou uma sensação de que não era uma boa ideia mexer com aquela minha memória afetiva. É que Faroeste fala muito sobre a minha infância na Ceilândia e sobre a agrura de ser pobre em Brasília no fim do século passado. Existe um profundo vínculo emocional entre mim e a música porque, de certa forma, eu conheci algumas pessoas que se encaixam perfeitamente no perfil de João de Santo Cristo, familiares inclusive. Porque a cidade de Brasília foi “inventada” assim: juntando um monte de gente diferente de tudo quanto é canto do Brasil, com suas histórias de exploração e injustiça, que foram atrás de uma oportunidade de uma vida melhor numa cidade que representava o país que superaria esse passado e finalmente se tornaria o país do futuro. Não discutindo a realização dessa utopia – até porque as melhores histórias são construídas na busca por utopias impossíveis – esse caldo humano foi responsável por toda uma construção cultural e social de uma identidade nascente – o Candango. Quando finalmente assisti ao filme, a primeira impressão foi a mais assustadora possível. O Diretor René Sampaio apresentou uma série de referências aos grandes filmes do Cinema Novo e à literatura do Modernismo, ao apresentar um sertão nordestino cruel e brutal, onde a existência do próprio sertanejo se configura pela força, pela sobrevivência. Isso se contrapõe ao sonho de uma cidade de oportunidades (“nesse país lugar melhor não há”) onde as coisas são belas (“Meu Deus, mas que cidade linda, no ano novo eu começo a trabalhar”).
                                          Um caminho que vai a lugar nenhum.

 A grande sacada da música – e do filme – é esse jogo de contraposição entre imagens bucólicas e amorosas (“Na sexta feira ia pra Zona da Cidade gastar todo seu dinheiro de rapaz trabalhador” ... “Maria Lúcia era uma menina linda e o coração dele pra ele Santo Cristo Prometeu” ... “Maria Lúcia, pra sempre vou te amar e um filho com você eu quero ter...”) com outras de brutalidade contumaz (“Agora Santo Cristo era bandido destemido e temido no Distrito Federal” ... “Desvirginava mocinhas inocentes e dizia que era crente mas não sabia rezar” ... “violência e estupro do seu corpo, vocês vão ver eu vou pegar vocês”) e têm como final apoteótico a busca eterna por redenção, pelo único caminho que existe: a morte. O Santo Cristo da música é a personificação de um anti-herói, uma mistura catártica de Lampião com Lancelot no meio do caldo de uma nova capital nascente. Ao escolher um protagonista negro e ao dosar muito bem o personagem de Jeremias – maconheiro sem vergonha – o diretor acertou a mão. Mas talvez a maior virtude do filme seja justamente as locações. A Ceilândia retratada no filme é tão fiel, tão real, que se remete a todas as histórias da minha infância. O nível de detalhamento das casas feitas de madeira, da natureza árida do cerrado brasiliense, das ruas de terra vermelha, dos descampados e vazios, do desamparo que configura todas as novas organizações humanas, servem para evidenciar ainda mais a inevitabilidade do conflito, principalmente quando João decide partir de frente contra essas condições. O maior pecado de João é a ousadia de, sendo negro, nordestino e pobre, buscar ser reconhecido fora do seu espaço – a pobre a abandonada Ceilândia. A sua redenção pela morte é retratada como o último recurso, o último grito de quem recusa-se a se render, mesmo sendo atingido pelas costas de maneira traiçoeira. A morte remete inclusive à santidade (“Santo Cristo era Santo porque sabia morrer”) o que é uma ironia em uma música em que todos os personagens têm nomes bíblicos. A música é sobre o valor do sacrifício. 

O filme é sobre sua inevitabilidade.


Como disse, eu nunca poderia ter um julgamento imparcial por ter uma visão afetiva tão forte sobre essa música, mas acho que o resultado final do filme é bem acima da média do cinema nacional. As locações são muito boas, a trilha sonora é magistral e a montagem foi muito bem executada. Pôde-se contar essa história de uma maneira nova, mas profundamente fiel ao seu roteiro. Isso é um grande feito.

É isso, pessoal, espero que vocês tenham gostado. Ficamos no aguardo dos seus comentários!