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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Coisas Loucas




Sento na sacada todas as noites. Gosto de observar as luzes das casas se apagando aos poucos, a noite caindo sobre tudo ao redor, menos em mim. Alguns eu percebo que, assim como eu, não conseguem dormir. Cada um espanta seus fantasmas como pode. Uns leem, outros assistem qualquer bobagem na televisão até o sono chegar. Tem dias que ele não chega.


Acendo um cigarro e penso em escrever sobre o que sinto. É estranho, pois eu comecei a escrever justamente para desaguar tanto sentimento que vivia aqui. E quando o sentimento mais infeliz de todos dominou, eu desisti. Eu não soube explicar uma tristeza inexplicável. Nunca soube dizer onde ou porque doía tanto. Muitos escritores e poetas afloram o seu melhor na tristeza. Eu não consegui decifrar as palavras que ela queria que eu externasse, e a enterrei dentro de mim.

A tristeza não é o fim de tudo. Sei que há coisas muito piores nesse mundo do que a infelicidade, e eu já experimentei a maioria dessas drogas. Não me viciei, mas quando experimentei a tristeza, ela fez de mim um lar. Agora, aqui observando uma noite fria de novembro, penso onde foram parar todos os gritos desesperados que eu não dei.

Os textos que não escrevi, as músicas que não cantei, os abraços que não dei, os amores que desperdicei, os sexos que não gozei, os sorriso que disfarcei, as flores que não cheirei, os olhares que desviei, as palavras que não falei, as valsas que não dancei, a vida que não vivi. Tudo passou e ao mesmo tempo permaneceu. Não foi o fato de ter ou não feito que fez desaparecer de mim. Continuo amando, continuo cantando, continuo sorrindo, continuo gozando, continuo falando, continuo desviando, continuo vivendo.

Meu relacionamento mais duradouro tem sido com essa fria noite, onde vejo luzes se acenderem e se apagarem, ouço um grito em algum lugar e não sei dizer se é de dor ou de prazer. E quem disse que não pode ser as duas coisas? Existe prazer em algumas dores, do contrário fugiríamos de todas elas. Existe um bocadinho de dor em alguns prazeres, do contrário não nos arrependeríamos.

Alguém ouve um blues. Aposto que nesse lugar tem uma garrafa de vinho barato e uma saudade. Todo blues carrega saudade. Toda noite fria não dormida, onde luzes se acendem e se apagam e alguém grita de dor e prazer, toda tristeza carrega uma saudade. No momento, a saudade mais marcante é de quando nada disso fazia sentido algum.

E agora, que eu encontro sentido em tudo que vejo, ouço e sinto, não vejo mais sentido em desaguar sentimentos.

O melhor dos sentimentos é vivê-los.
E hoje estamos com Ana P na seção #convidados. Ana é paulistana da clara e da gema, apreciadora das coisas boas da vida e uma leitora voraz do cotidiano. Escreveu em diversos blogs nos últimos anos, onde sempre se destacou pela capacidade de ver coisas belas na paulicéia desvairada. Gosta de cervejas artesanais, séries e costuma apresentar essas coisas a poetas viajantes que acabam parando em sampa por uns dias. 
Quer escrever nessa seção? Mande um e-mail com o texto e uma breve descrição sobre você para o nosso e-mail apenas1cast@gmail.com. Teremos o maior prazer em entrar em contato e viabilizar a publicação! .